Depressão e isolamento social

No seguimento do liveshow "Doses de Inspiração" 💊 em parceria com o Gabinete Psicologia partilhamos contigo algumas questões importantes no âmbito da saúde mental.


As perguntas são nossas mas as respostas são da Psicóloga Caroline Martins:



1. O que caracteriza uma depressão?


Quando falamos em depressão parece-me importante diferenciar duas coisas. Diferenciarmos a tristeza da depressão. A tristeza é uma emoção básica do ser humano, que todos sentimos no nosso dia-a-dia. Uma possível definição de tristeza será: uma emoção associada a uma diminuição de energia, ficarmos mais atentos a aspetos desagradáveis do quotidiano e haver uma menos disponibilidade para nos envolvermos em tarefas de exploração do meio. Eu digo, uma possível definição, porque cada pessoa tem o seu próprio dicionário emocional, ou seja, cada emoção pode ter um significado distinto de pessoa para pessoa, bem como a própria expressão emocional. A tristeza é então uma emoção básica, podendo ser a reação emocional a uma situação, e com um carácter mais curto no tempo.


Quando falamos de depressão, falamos de um estado emocional mais prolongado no tempo, mais persistente e mais intenso. O que caracteriza uma depressão é a presença do humor deprimido e/ ou perda de interesse em atividades que anteriormente eram prazerosas para nós. Existem alguns sintomas depressivos que surgem frequentemente, tais como: tristeza e visão negativa da vida (de si, dos outros e do seu futuro); isolamento social; aumento ou perda de apetite; insónia ou hipersónia; agitação ou apatia/ cansaço/lentificação; diminuição do desejo sexual; culpa, desmotivação, baixa autoestima; problemas de concentração e dificuldades de tomada de decisão; pensamentos sobre morte.


Parece-me importante referir que aqui, estaremos a falar de depressão em idade adulta. A depressão na infância e na adolescência também acontece, mas muitas vezes com algumas características diferentes.


2. Existe causas comprovadas que nos levem à depressão?


Quando falamos do funcionamento humano, não faz sentido falarmos em relações de causa-efeito. Nós somos seres complexos, com vários domínios de funcionamento (por exemplo: cognitivo, comportamental, emocional) e por isso o funcionamento humano não é bem explicado por esta relação tão simples e direta. Referindo um exemplo simples que elucida esta ideia: Um dia posso ouvir uma música e sentir-me triste e chorar, por exemplo. No dia seguinte, posso ouvir a mesma música e até me sentir de uma forma oposta. Se existissem relações de causa-efeito, possivelmente, aquela música iria desencadear sempre o mesmo efeito.


Neste caso, a depressão não se deve a uma causa especifica, mas sim a um conjunto de vários fatores que nos predispõem a, nomeadamente:


  • Afetividade negativa/ neuroticismo, ou seja, pessoas que têm mais dificuldades em responder a determinadas experiências de vida mais difíceis e por isso ficam mais tristes, ansiosas, com medo, frustradas, culpadas. Pessoas que tendencialmente vivem as coisas de forma mais intensa, negativa e pessimista.

  • Fatores ambientais/ contextuais como experiências adversas na infância (e.g. exposição à violência, negligência), eventos de vida stressantes (e.g. desemprego, perda de um familiar).

  • Fatores genéticos, ou seja, historial de depressão familiar.

  • Condições médicas crónicas ou incapacitante como a diabetes, obesidade, doenças autoimunes, cardiovasculares.

  • O aparecimento ou a junção destes sintomas podem contribuir para o desenvolvimento da depressão. No entanto, isto são vulnerabilidades que a pessoa tem para, não significa que será depressão porque é necessária uma avaliação e contextualização da história de vida de cada um.

3. Quais são os seus efeitos?


A depressão acarreta várias consequências em diferentes dimensões e contextos de vida do individuo:


  • A nível profissional pode haver uma quebra de rendimento e do desempenho. Muitas vezes existe um sentimento de desmotivação laboral. Muitas pessoas chegam mesmo a solicitar baixa médica.

  • A nível pessoal há uma diminuição de autoestima uma vez que as pessoas vão-se sentido mais incapazes e perdendo a esperança no futuro. Existe também um défice no autocuidado porque as pessoas não têm tanta vontade de se arranjar, e cumprir certos cuidados básicos.

  • A nível familiar começam a existir mais conflitos nas dinâmicas familiares e afastamento de alguns elementos da família.

  • A nível social existe maior probabilidade de isolamento social e mais conflitos com amigos colegas de trabalho porque as pessoas não se sentem compreendidas.

  • Aumenta o risco de desenvolver doenças crónicas como as cardiovasculares, autoimunes, distúrbios do sono.

Mais envolvimento em comportamentos de risco como abuso de álcool, tabaco, outras substâncias. Estas são algumas estratégias destrutivas e não adaptativas que as pessoas usam para “fugir” ao sofrimento. No entanto, acabam por levar à manutenção e agravamento dos problemas.

Sem um tratamento adequado, a depressão apresenta um curso crónico e recorrente. A maior causa de suicídio é a depressão (certos estudos apontam para 70% dos casos). Por isso, não devemos desvalorizar o “Ele/Ela está triste, mas vai passar; é só uma fase” porque não sabemos o que a pessoa está a passar, a sentir. Só ela é que sabe.


4. Existem personalidades mais propensas a estados depressivos?


A personalidade parece-me uma temática mais complexa, e a minha resposta poderia até depender do modelo de personalidade que me estaria a basear. Vou tentar dar um ou outro exemplo de traços de personalidade que alguns estudos mencionam como estando associados à depressão.


Além da Afetividade Negativa, como falei anteriormente. Ou seja, as pessoas que têm mais dificuldades em responder a determinadas experiências de vida mais difíceis e por isso ficam mais tristes, ansiosas, com medo, frustradas, culpadas. Pessoas que tendencialmente vivem as coisas de forma mais intensa, negativa e pessimista.


Também poderei dar o exemplo de pessoas mais Evitantes, ou seja, pessoas mais tímidas, que se inibem quer a nível profissional e social, tem medos das críticas e das responsabilidades. Pessoas que tendem a evitar conflitos internos e externos. Estas pessoas tenderão a ter dificuldade em sair da sua zona de conforto. E acabam por querer proteger-se de eventuais experiencias negativas, mas ao mesmo tempo não experienciam também oportunidades de situações positivas de crescimento e desenvolvimento pessoal.


5. O isolamento é uma causa ou efeito da depressão?


Um dos sintomas da depressão como já mencionei poderá ser o isolamento social, pela perda de interesse no envolvimento em atividades sociais, pela falta de compreensão que as pessoas deprimidas podem sentir por parte dos outros. Por sentirem, por vezes, vergonha e culpa pelo estado depressivo em que se encontram.


Será que a situação de isolamento social poderá predispor as pessoas para um estado depressivo? Talvez, podemos até mesmo fazer um paralelismo para a situação atual (covid-19) porque estamos isolados fisicamente, estamos confinados ao espaço da nossa casa, não podemos sair para ir trabalhar, jantar com os amigos. O ser humano é um ser social que quer conviver com outras pessoas e por existir essa diminuição de contacto social, podemos ficar mais tristes, mais vazios, mais angustiados. Por isso é que me parece muito importante, tentarmos manter o contacto social, na medida do possível, através de contactos por videochamadas, correio eletrónico, chamada telefónica… Existe aqui talvez um desafio ainda maior para a variável do contacto físico. Ou seja, para pessoas que valorizam o contacto físico, esta situação será ainda mais desafiante do ponto de vista emocional. Não podemos dar aquele abraço, aquele beijo, o toque…


6. Como podemos tratar a depressão?


A nível da psicoterapia, a terapia cognitiva-comportamental assume-se como um dos modelos terapêuticos mais utilizados com eficácia comprovada por diversos estudos. Muito brevemente, este modelo aborda a relação e a influência que os nossos pensamentos têm na forma como nos sentimos e na forma como agimos. Basicamente, este modelo considera que, modificando a forma como interpretamos as situações, mudamos a forma como nos sentimos e, por conseguinte, como nos comportamos. Na depressão, acontece, por vezes, uma tríade cognitiva. Ou seja, a pessoa passa a ter uma visão negativa em três áreas da vida: do futuro, dos outros e de si própria. Do ponto de vista metafórico costumo usar uma expressão: é como se as pessoas colocassem uns “óculos com umas lentes muito escuras e negativas”. As pessoas passam a ver o mundo, a si próprias e aos outros através dessas lentes. A terapia, de uma forma resumida, tem como primeiro objetivo consciencializar as pessoas que estão a usar esses óculos com essas lentes. Depois tentamos “limpar essas lentes” e tentar substituir para umas lentes

mais claras e transparentes, que permitam a pessoa ver o mundo de uma forma mais realista, saudável, construtiva e adaptativa.

Quando falamos de depressão, falamos muitas vezes de farmacologia. E em alguns casos poderá ser necessário utilizar uma terapêutica combinada (psicoterapia e farmacologia).


7. A Covid-19 tem que impacto na depressão?


Nesta fase, penso que faz sentido afirmarmos que estamos a viver uma situação de luto da nossa normalidade, ou seja, um luto do nosso quotidiano e da realidade que estávamos habituados. E falo de um luto, porque todos nós tivemos algumas perdas. Perdas da nossa rotina, perdas emocionais, perdas da nossa liberdade de movimentação. Logo, é natural nos sentirmos, por vezes, tristes, aborrecidos, apáticos, angustiados, ansiosos, com medo, entre outras emoções. Penso que é necessário nesta fase nos permitirmos sentir, ou seja, muitas vezes parece haver uma necessidade de fuga ao sofrimento e a certas emoções.


Do ponto de vista psicológico, é importante percebermos que não existem emoções positivas ou negativas, existem emoções mais agradáveis e outras mais desagradáveis, Mas todas são emoções saudáveis. Logo, quando me sinto por exemplo triste, não devo fugir dessa emoção, devo permitir-me senti-la. Tentar aceitar essa emoção e perceber o que estou a sentir, como me estou a sentir, que pensamentos parecem estar associados a esta emoção. Quando me permito sentir, também acabo por estar a organizar o meu mundo interno, estou a compreender-me, a conhecer-me melhor e também passo a controlar melhor as minhas emoções. Como consequência, aumento a probabilidade de me adaptar melhor a uma situação adversa.


Quero deixar um desafio que me parece importante. Para além de tentarmos estabelecer rotinas diárias as mais próximas à realidade que estavam habituados - como os meus colegas falaram nos outros dias – mantendo horários de sono, alimentação, prática de exercício físico, entre outros. Deixo aqui um desafio ligado às emoções. A ideia é chegaram ao final do dia e tentarem responder a uma questão muito simples: “Como é que me senti hoje?”. Tentem listar algumas emoções. Pode parecer um exercício simples, mas muitas vezes não é. Nós temos uma tendência a estar a atentos apenas a estados emocionais mais significativos e intensos. Muitas vezes as “micro-emoções” passam despercebidas. E com isso vamos perdendo controlo e conhecimento das nossas emoções.


Tentem então listar as emoções ao final do dia. Se sentirem dificuldade em responder,

tendem no dia seguinte estar mais atentos às emoções. Poderão sempre tentar procurar literatura na área da inteligência emocional ou procurar apoio psicológico. Não se esqueçam, de se permitirem sentir. Todas as emoções são válidas.


Vê a liveshow "Doses de Inspiração" que deu origem ao tema deste artigo:

Também disponível em podcast no Spotify!



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