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Persistir também é uma forma de coragem

9 de set.
7 min de leitura
  • A história de Wilson Pagavene José


Há sonhos que parecem naturais porque nascem em ambientes onde tudo aponta para eles. Estudar, entrar na universidade, fazer um mestrado, seguir para um doutoramento. Para algumas pessoas, este percurso surge quase como uma sequência previsível. Para outras, cada etapa precisa primeiro de ser imaginada, pensada, depois conquistada, e muitas vezes defendida contra limitações que não têm nada que ver com falta de talento ou de vontade.

É nesse lugar que encontramos a história de Wilson Pagavene José que vos vou contar de seguida.


Wilson vem de um contexto em que o ensino superior nunca foi um destino óbvio. E talvez seja precisamente por isso que fala do conhecimento com uma convicção que vai muito além da ideia de estudar para obter um grau académico. Para ele, o conhecimento tem valor porque transforma, mas o acesso a esse conhecimento pode transformar ainda mais.

Há uma diferença enorme entre saber que determinada possibilidade existe e sentir que essa possibilidade também nos pertence. Podemos ouvir falar de universidades, mestrados, doutoramentos, bolsas, investigação ou carreiras académicas durante anos e, ainda assim, continuar a olhar para tudo isso como algo distante, reservado apenas aos outros.

A mudança começa muitas vezes quando alguém percebe, pela primeira vez, que também pode ocupar esse lugar. Foi isso que Wilson sentiu. A formação não mudou apenas aquilo que sabia. Mudou a forma como passou a olhar para si próprio e para o futuro. E quando uma pessoa começa a imaginar uma versão diferente da sua vida, é muito difícil voltar a aceitar sem questionar tudo aquilo que antes parecia inevitável.



Hoje, Wilson carrega um sonho muito concreto: fazer um mestrado, seguir para um doutoramento e tornar-se o primeiro membro da sua família a alcançar esses graus académicos. Dito assim, pode parecer apenas uma meta, não é? Parece simples. Mas há sonhos que não podem ser compreendidos fora do contexto em que nascem.

Wilson ainda não sabe como irá custear esse percurso. E é precisamente aí que a história ganha outra profundidade. Sonhar quando os meios existem é uma coisa. Sonhar quando ainda não sabemos como tornar o caminho possível é outra muito diferente. Não porque o sonho seja maior, mas porque exige uma espécie diferente de resistência. Exige continuar a acreditar numa possibilidade que ainda não encontrou todas as condições para existir.

É por isso que uma das suas frases me parece tão importante: sonhar grande não é ingenuidade, é resistência.

Há contextos em que desejar mais para a própria vida pode parecer quase um ato de desobediência do próprio. Como se houvesse lugares de onde não devêssemos sair, objetivos que não nos pertencessem ou ambições que fossem demasiado grandes para aquilo que temos ou somos. E, no entanto, há pessoas que recusam aceitar esse limite invisível. Não porque ignorem a realidade, mas porque não querem que ela seja a única coisa a definir o seu futuro.

Wilson sabe que não ter recursos não significa não ter mérito. Esta talvez seja uma das aprendizagens mais importantes do seu percurso, porque toca numa injustiça que tantas vezes confundimos com normalidade. Gostamos de falar de mérito como se todos começassem no mesmo ponto, como se todos tivessem o mesmo tempo, o mesmo apoio, os mesmos contactos, o mesmo acesso a informação, as mesmas condições financeiras e a mesma possibilidade de falhar sem consequências graves. Não têm! Não se esqueçam disto! Há quem estude com tranquilidade e quem estude enquanto trabalha. Há quem tenha uma família que conhece o percurso académico e quem seja o primeiro a tentar percebê-lo. Há quem possa escolher uma formação sem pensar no preço e quem tenha de decidir se consegue pagar a deslocação, os materiais, as propinas ou até o tempo necessário para frequentá-la. Por isso, a falta de recursos nunca pode ser confundida com falta de capacidade. E talvez a grande força da história de Wilson esteja precisamente aqui. Não há nela uma negação das dificuldades. Há consciência delas. Há uma pessoa que sabe que o caminho não está garantido, mas que continua a acreditar que vale a pena procurar uma forma de o percorrer. E isso é o que o torna diferente.


Quando diz que a formação não muda apenas aquilo que sabemos, mas também quem nos tornamos, percebe-se que fala a partir de uma experiência real. Aprender não foi apenas adquirir competências. Foi ampliar horizontes. Foi descobrir novas perguntas. Foi ganhar linguagem para imaginar possibilidades que antes talvez nem fizessem parte do seu mapa.

Há experiências de aprendizagem que fazem isso connosco. Entramos nelas com uma determinada ideia sobre o que conseguimos fazer e saímos um pouco diferentes. Não necessariamente mais seguros, mas mais conscientes. Percebemos que existem caminhos que não víamos, pessoas com quem podemos aprender, oportunidades que talvez possamos procurar.

E, por vezes, esse primeiro contacto é suficiente para alterar uma vida inteira.

É também por isso que o sonho de Wilson de ser o primeiro da família a alcançar um mestrado e um doutoramento tem um significado que ultrapassa a realização pessoal. Ser o primeiro é uma experiência única. Há orgulho, mas também responsabilidade. Porque quando ninguém antes percorreu aquela estrada, não existe um mapa familiar para seguir.

Mas há outra coisa.

Quem é o primeiro cria uma referência.

Depois dele, alguém poderá olhar para o mesmo caminho de maneira diferente. Um irmão, uma irmã, um primo, uma criança da família. Aquilo que antes parecia impossível passa a ter um rosto conhecido.

É isso que Wilson quer dizer quando afirma que ser o primeiro também é abrir caminho para outros.

E talvez seja esta a parte mais bonita do conhecimento: ele raramente termina na pessoa que o recebe.

Uma oportunidade educativa pode transformar um indivíduo, mas também pode mudar a forma como uma família inteira olha para o futuro. Pode mudar expectativas. Pode alterar conversas. Pode criar novas referências. Pode fazer com que alguém mais novo cresça sem pensar que determinada possibilidade lhe está vedada. É assim que algumas mudanças se tornam maiores do que nós. Não através de grandes discursos, mas porque alguém chegou primeiro e deixou a porta um pouco mais aberta.

Wilson continua a caminhar em direção a esse sonho sem saber ainda exatamente como irá chegar lá. E, curiosamente, isso torna a sua história mais próxima e mais verdadeira.

Não estamos perante alguém que já conseguiu tudo e agora olha para trás com a segurança de quem conhece o final. Estamos perante alguém que ainda está no meio da história.

Há incerteza. Há obstáculos. Há uma questão financeira por resolver. Há caminhos que ainda precisam de ser encontrados. Mas há também uma decisão muito clara de continuar.

E talvez seja por isso que o lema que escolheu faça tanto sentido: persistir também é uma forma de coragem.

Nem sempre reconhecemos a persistência como coragem porque ela raramente é espetacular. A coragem que imaginamos costuma estar associada a grandes gestos, a momentos decisivos, a escolhas que toda a gente consegue ver.

Persistir é diferente. Persistir é levantar-se numa manhã em que nada mudou e continuar a tentar. É enviar mais uma candidatura. É procurar mais uma possibilidade. É estudar mais um pouco. É fazer perguntas. É admitir que não sabemos como, mas não desistir do porquê.

É manter vivo um sonho que ainda não encontrou os meios de que precisa. Não há garantias nisso. Há compromisso. E talvez a verdadeira coragem tenha muito mais a ver com isto do que imaginamos.

A história de Wilson faz-me pensar também na forma como julgamos os percursos dos outros. Vemos quem chegou e raramente perguntamos quanto teve de atravessar. Vemos títulos, diplomas, funções, conquistas, mas quase nunca vemos o intervalo entre o desejo e a concretização. Esse intervalo pode durar anos. Pode ter recusas. Pode ter pausas. Pode ter momentos de desânimo. Pode obrigar alguém a avançar muito mais devagar do que gostaria. Mas avançar devagar continua a ser avançar.

Wilson diz que segue aprendendo, passo a passo, sem perder a esperança. Talvez seja essa a frase que melhor resume tudo. Passo a passo. Não há atalhos prometidos.

Não há uma narrativa artificial de que basta querer muito para conseguir tudo. A vida é bastante mais complexa do que isso.

Mas há uma coisa que continua nas nossas mãos: decidir se paramos ou se procuramos o próximo passo possível.

E talvez o próximo passo não seja ainda o mestrado.

Talvez seja encontrar uma bolsa.

Conhecer alguém.

Preparar uma candidatura.

Melhorar um currículo.

Descobrir uma universidade.

Fazer uma formação.

Estudar uma língua.

Pedir orientação.

Cada uma dessas coisas pode parecer pequena.

Mas é assim que os grandes percursos são construídos.

Raramente através de um salto.

Quase sempre através de uma sucessão de passos que, vistos isoladamente, pareciam insuficientes.



No fundo, as lições que Wilson escolheu partilhar falam todas da mesma coisa: da possibilidade de não deixar que o ponto de partida determine sozinho o destino.

O conhecimento transforma porque nos permite ver mais longe. O acesso transforma ainda mais porque nos permite chegar onde antes só conseguíamos olhar. Sonhar é resistência quando o contexto nos diz que devemos contentar-nos com menos. A formação muda-nos porque altera aquilo que acreditamos ser possível. A ausência de recursos não apaga mérito. E ser o primeiro é importante porque alguém terá de ser o primeiro para que o segundo já não comece exatamente do mesmo lugar.

Talvez seja isso que torna esta história tão humana. Não sabemos ainda como terminará. E não precisamos de saber. Há uma tendência para acharmos que uma história só merece ser contada quando já existe um resultado. Quando alguém venceu. Quando chegou. Quando pode mostrar aquilo que conseguiu. Mas há histórias que merecem ser contadas precisamente enquanto ainda estão a acontecer.

Porque talvez alguém que esteja a ler também esteja a meio do caminho.

Talvez também não saiba como vai conseguir.

Talvez tenha um sonho maior do que os recursos de que dispõe.

Talvez já tenha pensado em desistir porque olha para a distância que falta e esquece tudo aquilo que já percorreu.

A história de Wilson não promete que tudo será fácil. Diz apenas que ainda vale a pena continuar. E, às vezes, é isso que precisamos de ouvir. Que não ter tudo resolvido não significa que tenhamos falhado. Que não saber ainda como chegar não significa que o destino esteja proibido. Que demorar mais não significa ter menos mérito. Que pedir ajuda não diminui ninguém. E que persistir, sobretudo quando ainda não existe certeza alguma sobre o resultado, é também uma forma muito séria de coragem.


Wilson Pagavene José quer continuar a estudar. Quer chegar ao mestrado. Quer chegar ao doutoramento. Quer ser o primeiro da família.


Talvez consiga. Espero que sim. Desejo que sim.

Mas há uma coisa que já começou a fazer: abriu dentro de si a possibilidade de esse futuro existir. E todas as grandes mudanças começam assim.

Primeiro alguém imagina. Depois acredita. Depois procura. Depois tenta.

E um dia, talvez, aquilo que parecia demasiado longe transforma-se apenas no lugar onde finalmente conseguimos chegar.


Wilson Pagavene José “Persistir também é uma forma de coragem.”

Ainda curios@ sobre a história de Wilson?


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E talvez fique uma pergunta para quem chegou até aqui: quantas vezes confundimos falta de oportunidade com falta de capacidade e quantos sonhos poderiam existir se alguém tivesse apenas acesso à oportunidade certa?

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