Conflitos nas dinâmicas familiares - como gerir?

No seguimento do liveshow "Doses de Inspiração" 💊 em parceria com o Gabinete Psicologia partilhamos contigo algumas questões importantes no âmbito da saúde mental.


As perguntas são nossas mas as respostas são da Psicóloga Júnior Leonor Pereira:





1. Quais os conflitos mais comuns nas dinâmicas familiares?


Acho que era importante salientar a ideia de que a família é um sistema dinâmico, em que qualquer mudança na estrutura ou num dos seus elementos traduzirá uma modificação em todo o sistema (e.g. uma doença, desemprego…).


Dentro de uma família podemos ver que existem outros subsistemas: o conjugal, o filial, parental e nos casos em que existe mais do que um filho, o fraternal. E por isso, uma pessoa tem vários papeis, ora é esposa, ora é mãe, e é mulher porque o era antes de constituir uma família e muitas vezes esquecemo-nos disso. Principalmente as mães, uma grande percentagem, a partir do momento que têm um filho esquecem-se que também são mulheres e diminuem o seu autocuidado e quando fazem algo por si sentem-se culpadas.


Variadíssimas vezes a comunicação não é bem-sucedida. Segundo Watzlawick a comunicação falha, basicamente, quando as pessoas não conseguem afastar-se do seu próprio ponto de vista, o que conduz a situações conflituosas no seio familiar. Nesse caso, rompe-se a escuta e fica impossível abrir caminho para o entendimento. Quando tratamos das relações familiares, a existência de desequilíbrio e, portanto, de tensões e conflitos, é uma realidade. Isso porque a família é constituída a partir da união de indivíduos que, em si, já encerram conflitos e não têm muitas habilidades de comunicação e, tendencialmente, gritam, insultam, culpam; somos constantemente pressionados para exercer papéis a nós destinados, esses papéis sociais nem sempre estão em concordância com aquilo que somos e, nesse caso, são geradas situações de tensão.


Outros conflitos, mas quase sempre advindos de falhas na comunicação, prendem-se com a relação entre os familiares: irmãos, crises no relacionamento, entre pais e filhos. Outro aspeto prende-se com a luta de poder entre pais e filhos, ou seja, crianças que são mais desafiantes e instrumentalizam o seu comportamento.


Os conflitos podem resultar segundo a gravidade do problema, ou seja, discussões mais superficiais (e.g. irmãos a discutir) ou mais complexas que afetam diretamente a estrutura da família (e.g. infidelidade, violência, negligência).


Os conflitos também podem surgir por assuntos mal resolvidos entre os familiares (e.g. falta de confiança). Por isso, como cada pessoa é diferente, as razões pelas quais advém conflitos podem ser infinitas e, muitas vezes, para resolver o conflito é necessário ter em consideração a sua origem. Não obstante os problemas relacionais que surjam a nível familiar, isto não será necessariamente desastroso desde que os conflitos sejam trazidos à luz com a preocupação de serem discutidos e compreendidos.


2. Quais são as consequências mais comuns para as crianças dos conflitos entre os pais?


É normal os pais discutirem e discordarem entre si. Contudo, estas discussões e discórdias não devem ocorrer à frente da criança.


Os conflitos interparentais severos ou crónicos podem provocar consequências como interrupções no desenvolvimento cerebral, distúrbios do sono, ansiedade, depressão, indisciplina. Há estudos que demostram que existem diferenças na forma como reagem perante os conflitos entre os pais: as meninas têm mais predisposição para desenvolver problemas emocionais e os meninos mais problemas de controlo de comportamento.


3. Focando um bocadinho nos conflitos entre pais e filhos, quais são os mais frequentes?


Os pais saudáveis podem passar-se um bocadinho, precisam de se zangar de vez em quando. É normal. Além de pais, têm outros papeis. Contudo, têm de perceber como o devem fazer e quais as consequências dos seus comportamentos. Em cada família, tudo depende da forma como lidam os as situações, como gerem os conflitos, como se habituaram a fazê-lo. E isso depende das características dos pais, das crianças, da forma como funcionam como família, das interações positivas, etc.


Acho que é algo que deve ser reforçado porque para estarmos bem com as outras pessoas, precisamos de estar bem connosco, de nos sentirmos bem. Se eu, enquanto mulher tenho dificuldades em gerir as minhas emoções, ter pensamentos mais ruminativos, isso irá refletir-se nas pessoas que me rodeiam, na minha família. Pode haver menos paciência, mais irritabilidade, mais ansiedade, etc. Deste modo, é importante salientar este aspeto para termos consciência dos motivos de determinados comportamentos, conflitos…


Respondendo à tua questão, há estudos que demonstram que os motivos mais comuns em conflitos entre pais e filhos dizem respeito ao incumprimento de regras ou pedidos, rotinas de estudo, brigas entre irmãos, birras, horários de sono, recusa em realizar tarefas domésticas, problemas escolares (dificuldades académicas e comportamentos).

4. Quais são as principais formas dos pais de gerirem os comportamentos das crianças?


Isso depende de família para família. Temos famílias mais conservadoras que ainda usam o bater como uma estratégia e dizem muitas vezes em consulta: “uma palmada de vez em quando não faz mal”, “também levei muitas na idade dele”. E já agora, aproveito para dizer que não é a melhor estratégia porque aumenta a frustração nas crianças. Ganham medo, ficam mais zangadas, envolvem-se em mais brigas com os colegas e têm níveis inferiores de inteligência emocional.


Há estratégias para promover comportamentos desejados (e.g. fazer os trabalhos de casa) recorrendo ao reforço positivo como elogiar, dar uma recompensa/ fazer uma atividade no final da semana (evitando os presentes e.g. comer a sua comida preferida)

Outras pretende diminuir comportamento desadequados (e.g. birras). Para isso, usamos as estratégias de time out (o virar para a parede 5 minutos sem qualquer tipo de estímulo aliciente para a criança), custo de resposta (privar a criança de objetos ou atividades que já sabiam que iam ganhar e.g. não ir a uma festa de aniversário).


Os pais dizem muitas vezes: “Pois Dra. isso é muito bonito, mas é difícil de fazer, não temos paciência, dá trabalho”. E eu digo: “E ninguém disse que ia ser fácil, e eu percebo que a vontade de dar uma palmada é imensa porque queremos que aquele problema acabe ali, mas não é o mais adequado, não é assim que eles se desenvolvem de forma adaptativa.”


O ser humano é resistente à mudança. Para nós, adultos é mais difícil aprendermos, ganharmos novos hábitos (e.g. começar a meditar, a ler mais ou aprender um desporto, um idioma novo). Para as crianças já não é assim tão complicado porque elas são “esponjas”, têm mais plasticidade cerebral, aprendem mais facilmente. Além disso, não nos podemos esquecer que os pais são os principais modelos das crianças, são os super heróis e por isso, copiam também os comportamentos dos pais( quer os mais ou menos adequados) por exemplo podem partilhar mais com as crianças porque viram os pais a fazerem-nos ou podem bater nas outras crianças porque presenciaram uma situação de violência em casa.


5. E com os adolescentes, como se deve agir?

É perfeitamente natural que a partir de uma certa idade (inicio da puberdade, adolescência) que os filhos tenham mais vontade de definir os seus valores, os seus princípios e recusem a opinião dos pais porque acham que já sabem tudo. Outro aspeto que é normal, é que os pais queiram que os filhos sejam as suas réplicas ou que sejam/alcancem aquilo que não foram/ conseguiram. Ora isto pode gerar conflitos que, se não forem bem resolvidos podem ter implicações significativas no adolescente. Algumas estratégias prendem-se com:

  • Procurar ser cúmplice, estabelecer uma boa relação, manter o diálogo com o/a adolescente para que partilhem os bons e maus momentos.

  • Trabalhar a escuta ativa, a compreensão e o respeito: saber ouvir a outra pessoa e compreender o seu ponto de vista, evitando o julgamento, mantendo a neutralidade. Tudo isto potencia um melhor diálogo.

  • Saber ceder: ao pais ou os filhos têm razão nas crenças e opiniões, mas têm que saber dar o braço a torcer, deixar o orgulho e ceder um pouco às convicções da outra parte.

  • Aceitar as diferentes personalidades: os filhos não são cópias ou continuações dos pais.

6. Pessoas fora da dinâmica familiar devem intervir para atenuar esses conflitos?


Na minha opinião sim. Contudo esta pessoa deverá ser um profissional, ou seja, uma pessoa imparcial à família. Estamos a falar de terapeutas familiares que irão junto da família identificar os conflitos, e desenvolver estratégias para ultrapassar as dificuldades no seio familiar, melhorando os canais de comunicação. Como alternativa, há ainda a possibilidade de acompanhamento às famílias via telefone, proporcionada pela Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar.

7. Que métodos devemos aplicar para controlar e minimizar conflitos neste âmbito?


Como já referi anteriormente, os conflitos familiares podem ser precipitados por vários fatores e dependendo da dinâmica familiar que se apresenta, podemos acionar diferentes formas de apoio.

Por exemplo, se as dificuldades residem nas disputas entre os irmãos é importante ter um espaço de compreensão para expressarem o que sentem, evitando a passividade e agressividade. Todas as relações de casal, tanto as mais estáveis, como as que já estavam fragilizadas, vão ser postas à prova. Em casal, é desejável que a comunicação sobre o que se sente, se processe de uma forma construtiva. Se o casal funcionar como uma boa dupla, além de diminuir a tensão, promove a estabilidade. Pode ser uma oportunidade para desenvolver a cumplicidade.

Outras estratégias passam por:

  • Dar a máxima importância à comunicação.

  • É importante anteciparmos, o que vai ser stressante e tentar saber de antemão como vamos reagir e gerir; aceitarmos o que estamos a sentir, como medo, ansiedade, frustração, incerteza, pois apesar de serem sentimentos normais, em situações como esta os seus efeitos são exponenciais, dai a importância de nos prepararmos para lidar com tais sentimentos em nós e no outro;

  • Identificar os nossos sentimentos e dos outros e mantermo-nos atentos aos sinais de stress na família; a maneira como exteriorizamos a nossa ansiedade pode afetar os que nos rodeiam;

  • Gerir a situação fazendo coisas que todos gostam; organizar uma reunião semanal onde todos se juntam, se colocam as dificuldades, tentando arranjar soluções sem atribuição de culpas; usar o humor, fazer jogos; cuidar de si mesmo física e psicologicamente e dar espaço para que os outros façam o mesmo; evitar pensamentos negativos

  • Escutar ativamente, sem críticas ou interromper o outro; compreender a perspetiva do outro, ser empático significa calçar os sapatos dos outros; agir afetuosamente, fazendo, sempre que possível, demonstrações de carinho.


8. Fazendo a ponte para a situação atual, qual o impacto da COVID 19 entre pais e filhos?


Há um contraste muito grande no que as famílias estão a viver porque se pensarmos bem há mais de um mês as crianças, adolescentes iam para a escola, pais iam trabalhar e estavam uma pequena parte do dia juntos (infelizmente). Hoje, perante esta pandemia, grande parte deles estão todos os dias quase 24 horas juntos. Passamos dum 8 para um 80.


Perante a circunstância atual, os pais estão em casa por diferentes situações: muitos estão obrigados a gozar as férias, outros estão em regime de teletrabalho e outros, infelizmente, estão desempregados, sendo esta uma situação super stressante porque já estão a pensar como irão gerir as despesas, mais ansiedade, alterações de humor, irritabilidade e mais impulsividade, menos paciência. Com o teletrabalho, muitas famílias não conseguem a ter horários bem definidos, condições ideias para trabalhar. Estão sujeitos a situações de stress acrescido porque têm que se pais, maridos ou esposas, funcionários da empresa e ser a pessoa de forma individual. Além disso, pensam que não estão a trabalhar, educar ou ensinar tão bem como gostariam, mas acredito que estão a fazer o seu melhor.


Por mais que apreciemos a companhia dos entes queridos, como filhos e cônjuges, não estamos habituados a passar todas as horas do dia confinados a um espaço reduzido como o das nossas casas. O isolamento que se nos pede devido à Covid 19, é natural que traga alguma tensão aos membros da família. De facto, estamos a vivenciar uma situação complicada que tem gerado um impacto negativo quer a nível individual quer a nível interpessoal.


Muitos de nós está em regime de teletrabalho e por isso, poderá existir uma maior tendência para a confusão de papeis familiares, ou seja, não saber quando sou o funcionário da empresa, quando tenho que ser a esposa, o irmão, a filha, o pai…


Outro aspeto que poderá aumentar os conflitos nas dinâmicas familiares diz respeito à quebra do rendimento financeiro uma vez que muitas pessoas não podem trabalhar em regime de teletrabalho e foram suspensas ou atém mesmo despedidas dos seus trabalhos.


Pelas estatísticas dos últimos dias, conseguimos perceber que há um aumento da violência doméstica uma vez que temos vítima e agressor no mesmo espaço noite e dia e não se pode sair de casa para pedir ajuda, apenas ir ao supermercado ou farmácia durante o dia. Mas as agressões acontecem maioritariamente de noite quando as discussões são tantas e o agressor sabe que a vítima não pode sair de casa.


Vê a liveshow "Doses de Inspiração" que deu origem ao tema deste artigo:



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