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Sem sabermos, adoramos mentirosos

A mentira torna as interações mais leves - mais agradáveis -, porque, pura e simplesmente, há verdades que não nos importam. Estaremos realmente dispostos a ouvir o nosso vizinho dizer que “não, não está tudo bem”? No geral, é uma conversa que dispensamos ter. Também não quereremos magoar o familiar que nos presenteia com umas calças ‘desengraçadas’ na festa de aniversário. Por isso, mentimos.


“Está tudo bem”. “Depois combinamos algo novamente”. “Desculpa! Não ouvi o telemóvel”. “A camisola fica-te bem”. “Adorei a prenda”. Voluntaria ou involuntariamente, todos mentimos. Essa é a verdade.


A mentira acompanha-nos desde a infância, porque, enquanto crianças, somos educados por adultos que mentem todos os dias. Mas não se precipitem nas conclusões. Todos sabemos que mentir é errado. No entanto, há que assumir: na maioria das vezes, mentir é rápido e funciona. Mais importante ainda, o recurso à mentira é um comportamento social tão básico como o ato de agradecimento.


Tal como o camaleão, nós ‘enganamos’ para nos protegermos. É um mecanismo de defesa natural; uma questão de sobrevivência (social). Ora, importa reforçar: todos mentimos, com maior ou menor consciência disso. E fazemo-lo para preservar as nossas relações. Como? Basta ‘inverter’ o sentido de algumas das afirmações que introduziram este texto. Aí, vão ficar com uma ideia clara da resposta. “Eu ouvi o telemóvel, mas não quis falar contigo”. “A camisola fica-te mal”. “Não gostei da prenda”. Percebem agora? Sobrevivência social.


A mentira torna as interações mais leves - mais agradáveis -, porque, pura e simplesmente, há verdades que não nos importam. Estaremos realmente dispostos a ouvir o nosso vizinho dizer que “não, não está tudo bem”? No geral, é uma conversa que dispensamos ter. Também não quereremos magoar o familiar que nos presenteia com umas calças ‘desengraçadas’ na festa de aniversário. Por isso, mentimos. De novo: é fácil. E funciona.


Até certo ponto, como se percebe, a ‘falsidade’ compensa. E assim chegamos a uma das conclusões mais arrepiantes. Moralmente, o mentiroso deve ser condenado. Mas o ser mais sincero é tido como rude. Como insensível. Como tudo menos honesto.


Independentemente do motivo que, diga-se em bom português, vos leva a pregar a vossa ‘peta’, lembrem-se do ditado: a mentira tem perna curta. Ou, então, é uma bola de neve. Uma única mentira pode embrulhar-vos numa encruzilhada que só conseguem escapar ao mentir ainda mais. Não fiquem presos na vossa própria teia. Tornem a vossa vida mais fácil. Se optarem pela sinceridade nua e crua e não houver ofendidos, pelo menos podem congratular-se: estão perante uma relação saudável e digna de confiança. E não posso terminar sem dizê-lo. Se chegarem ao fim deste texto e ainda estiverem convencidos de que não mentem, eu tenho uma verdade para vos revelar: estão a mentir.




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