• Joana Lemos

Aqui dentro, o confinamento não se aplica

Sempre me recordo de observar o mundo e os outros, com a curiosidade própria de quem se interroga e interroga o mundo. Uma interrogação premente, como que a quebrar barreiras: as barreiras das respostas fechadas; as barreiras das ideias preconcebidas; as ideias aparentemente inovadoras mas que, algures, ia descobrir terem ramificações anteriores. Este questionamento e abertura são uma base importante para o estabelecimento de relações diversas, que acabam por nos enriquecer e fazer crescer. Crescer nos pontos de vista que conseguimos abarcar; nas sensações que nos permitem experimentar; nas reflexões múltiplas que, ora nos descansam, ora nos atormentam, mas que, em conjunto, nos fazem amadurecer e tornar mais aceitantes da diferença, da variedade humana e da própria vida a acontecer.



Agora que estamos em confinamento, parece que se torna mais fácil perceber o comum em todos nós: de repente, como se fôssemos um todo interligado, damos por nós, todos sem exceção, a sofrer dos mesmos dissabores: a falta de liberdade; a saudade do afeto e do toque; a sensação de claustrofobia; a sensação de perda; a falta de contato com a própria humanidade. De repente, dizia, é como se estivéssemos mais perto de perceber como nos aproximamos nas nossas interrogações mais secretas.

[Estarei apenas cansada? Serei mesmo um bom pai? Será possível que me sinta farto de estar com os meus filhos? Será que tenho aproveitado a vida da melhor maneira? E se perder a minha esposa? E se trouxer o vírus para casa? Porque é que respondi daquela maneira ontem? Porque é que não durmo descansada? E se não receber este mês?]

Este questionamento global poderá ser um bom ponto de partida para uma melhor e maior reflexão: será que me interroguei o suficiente no meu dia-a-dia? Será que tomei como certa a minha vida e as minhas relações? Será que afastei pessoas apenas e só por não as compreender? Será que dei de mim com veracidade e entrega?


Agarrar esta experiência comum, apesar de difícil, pode ser a base para uma reflexão maior: a da humanidade que queremos ser, ter e proporcionar.


Depois, claro, há as situações verdadeiramente difíceis: aqueles que perderam pessoas; aqueles que perderam empregos; aqueles que estão em vias de ter que fechar portas; aqueles que não sabem se vão ter de despedir os seus funcionários.


Para estes, a mesma interrogação interessa, mas acompanhada de uma certeza: a de que nunca perdemos ninguém dentro de nós; a de que outro emprego existe; a de que outras portas se abrirão e de que o mesmo se passará com quem tivemos de deixar ir.


A vida é, na verdade, constituída por pequenos grandes nadas e, se conseguirmos agarrar, todos os dias, uma experiência de afeto, de autenticidade, de verdade e de questionamento, não há limites para onde conseguiremos chegar. Não há confinamento possível para a pessoa que somos e queremos ser e, muito menos, para a pessoa que podemos alcançar.


Aqui dentro de nós, o confinamento não se aplica; apenas a interrogação, com vista a ultrapassar barreiras.






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