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Por mares nunca dantes navegados

Podia ter sido ontem, mas foi há muito. A sensação de assombro e as cócegas no pescoço, como que a afirmar: “É belo. É múltiplo; é crescente e inatingível, se bem que algo me diz que é igualmente captável nos mares interiores”. Recordo-me bem do ânimo interno, como que a sussurrar: “é por aqui; sempre por aqui”, até ao absoluto.

Por mares nunca dantes navegados, tive, assim, a primeira noção básica do(s) Universo(s) e da minha unicidade com ele(s). “É por aqui; é por aqui...”.





Desde esse dia, talvez (quem sabe?!) a minha resoluta vontade ditou-me que o todo está cá dentro e que o único caminho a percorrer é o do próprio. Haverá, por ventura, maior aventura do que esta?! Desde esse dia, digo-me: “é por aqui; é por aqui...”. A minha verdade – é esse o caminho. Arrisco mais – a nossa verdade– é esse o único caminho.

Tentando nunca esquecer esta máxima, procurar não nos afastarmos demasiado do que sentimos; procurar encontrar aquilo que nos floresce; remanescer apenas o tempo estritamente necessário naquilo que connosco não se compadece; rumar onde sabemos haver o cântico e o poético na vida; recorrer aos subterfúgios apenas e só se servirem de defesa ou de descanso. O descanso também é aqui necessário porque esta procura é absoluta, exaustiva, premente. “É por aqui; é por aqui...”.


Reconhecida a trajetória, mesmo que não totalmente, convém, depois, estar atento ao que entretanto surge e perceber se essa inovação continua a sentir-se como nossa. Por vezes, na adolescência por exemplo, essa caminhada é difícil de conceber e compreender mas há em nós um núcleo, uma base que não desaparece. Encontrá-la custe o que custar, sejam quais forem os caminhos percorridos ou os acontecimentos vividos entretanto.

Como crianças, procurar deslumbramo-nos com o cerne de nós próprios; com tudo aquilo que sabemos ainda não termos alcançado ou com tudo aquilo que está em nós, germinando como uma flor. Arriscar; ter a coragem de sermos nós próprios; nunca esquecer “É por aqui, é por aqui...”.


Ainda hoje vi uma criança que, espantada com uma estátua eminente, de imediato correu para ela, percorrendo-a: era como se estivesse a explorar o possível, já que havia as partes aparentemente inacessíveis, lá em cima. Percorreu tudo o que podia, com a certeza e a determinação de quem a queria perceber e sentir melhor. A teoria por detrás dela não foi o que a preocupou; o que lhe foi chamativo foi a sua magnitude e saber se se podia explorar tal grandeza. Como nós, se virmos bem: o que interessa não é o que teorizamos ou teorizam sobre nós; o que interessa é fazer uso de toda essa magnificência interior.


Naquele dia da unicidade com o Todo, uma verdade se fez cá dentro: o caminho é este, não outro ou o de outro alguém.

O caminho faz-se caminhando.

Que permaneça em todos a coragem desta decisão: a de percorrer “mares nunca dantes navegados aqui, aqui, sempre por aqui”.





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