O nosso bem-estar fica para depois

Podemos evocar todos os motivos do mundo para justificar a procrastinação. Tanto faz. O importante não está em reconhecer as causas; está, sim, em reeducar a nossa mente quando a vontade de Adiar nos toca. É possível e só faz bem. (...) Eu escrevo para propor uma alternativa: a imaginação. Vislumbrem o falhanço.


Facto: o ser humano está biologicamente programado para obter prazer e procurar a felicidade. Quando confrontado com algo potenciador de sofrimento - físico ou emocional -, há dois caminhos a seguir: o ataque ou a fuga. Importa focar na segunda opção, porque saibam, caros leitores, que fugimos muitas vezes - das nossas tarefas, das nossas funções no trabalho e noutros contextos, e, sim, dos nossos sonhos. Aparentemente, é o mais fácil, ou o mais cómodo. Deixem-me, pois, apresentar-vos outra verdade: nem sempre temos razões concretas para tal; para fugirmos. Em muitos casos - diz-nos o ditado -, estamos apenas a ‘adiar o inadiável’. A procrastinar, em bom rigor.


Permitam-me, desde já, desenganar-vos. A procrastinação não é desleixo, nem nenhuma forma mascarada de preguiça. Também não é nenhum problema emocional ou psiquiátrico. Na verdade, são muitos os que procrastinam por autoconfiança e maior autonomia; por saberem que, mesmo sob pressão, fazem o que tem de ser feito. O problema surge quando este adiamento se traduz em ansiedade e sentimentos de culpa. Perante essa possibilidade, chegamos a um dado interessante: há algo de irónico na nossa natureza. Embora a decisão de adiarmos uma tarefa menos agradável, por exemplo, cause um alívio de curto prazo, essa tranquilidade, eventualmente, converte-se em stress. Reflitam sobre esta premissa: conscientemente, evitamos - fugimos! - o sofrimento de começar algo para, depois, experienciarmos uma dor ainda maior: a impaciência, a irritabilidade e a dor do tempo perdido.


Podemos evocar todos os motivos do mundo para justificar a procrastinação: a falta de energia, uma personalidade tendencialmente depressiva, menor capacidade de organização, o desprazer que a tarefa causa, ou a chuva. Tanto faz. O importante não está em reconhecer as causas; está, sim, em reeducar a nossa mente quando a vontade de Adiar nos toca. É possível e só faz bem.


Há alguns conselhos práticos a seguir. Listar as tarefas por escala de prioridades, ou eliminar distrações, como a televisão e as redes sociais, são dicas que todos deveremos seguir. Mas escrevo para propor uma alternativa: a imaginação. Vislumbrem o falhanço. A pergunta é: qual será a consequência do adiamento? Pode ser uma imagem profissional manchada. Um amigo chateado, talvez. Só vocês saberão. E, por mais desagradável que possa ser criar esta imagem mental - do nosso potencial insucesso -, deixo-vos uma garantia: o impulso para a ação vai chegar. Vejam este método como um estimulante, mas algo muito melhor do que um fármaco: é conhecimento. Podem, agora, questionar: “de que adianta visualizar o falhanço se adio o meu dever justamente por medo de fracassar?”. Eu respondo: feito será melhor do que perfeito. E, se fizerem - seja o que tiverem a fazer -, já sabem que ganharam.


Usem, também, a imaginação para visualizarem a paz dos dias sem compromissos. Coloco, assim, a questão oposta. Qual é o vosso benefício? Desta vez, conheço a resposta, pelo menos em parte. A vantagem é a calma. O bem-estar que não foi adiado.


Quer mantenham o foco nas consequências, quer nos ganhos, recompensem-se assim que cumprirem o vosso dever. Quando o fizerem, sabem que estão perante uma conquista. De tempo e de felicidade.





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