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E afinal...

Recordo-me bem dos embates da vida, quase com carinho e compaixão pelo que aí senti. As entranhas a revolverem-se; o grito do Munch dentro personificado; as ofegantes e engolfantes incertezas; as vazias mãos; o vazio coração; os penhascos, outrora sonhos, feitos depois ilusões ou desilusões.


Munch, cá dentro, aqui. Que grandiosidade, que quase gentileza criativa nesta brutalidade.


Hoje, olhando tais embates, sinto carinho e compaixão pelas vezes em que subitamente parecemos morrer e renascer; pelas múltiplas crises que nos transformam; pelos imensos, mas felizmente poucos, momentos de total desassossego ou de total dor que experienciamos.


Quando crianças, talvez a desilusão de não podermos ter aquele brinquedo ou aquela amizade; quando jovens, talvez a brutalidade de um amor não correspondido ou de não podermos ir àquela festa ou concerto; quando adultos, as inúmeras vicissitudes que constituem a própria adultícia, plena de responsabilidades, preocupações e desilusões, apesar de não só. As perdas sempre presentes neste momentos de desespero, claro está.


Os embates da vida e do crescimento, assim vistos de longe, parecem súbitas edificações de novas estruturas; assemelham-se ao aparecimento de novos continentes, circundados por mares revoltos e justíssimas constatações: e afinal, não era para sempre; e afinal, não se podia acreditar nela/e; e afinal, os princípios eram apenas fins; e afinal, a relação não se parecia com nenhum romance; e afinal, estaremos sempre sós; e afinal, a morte acaba por aparecer mesmo, arranhando-nos de frente.


Pergunto-me: quantas mais reestruturações passaremos? Quantas mais vísceras serão subitamente revolvidas? Quantos mais momentos de ardor e inconformidade nos serão apresentados? Quantas mais vezes, a reconfiguração interna rumo a sermos outros?


E afinal, todos estes momentos nos comprovam, uma e outra vez, que permanecemos quase iguais na base humana que possuímos: acreditamos ainda que o enredo será outro; que será para sempre; que mais vale a pena ter fé; que ainda temos tempo para aquele sonho ou para aquela realização; que, de certeza, vai correr tudo bem ou que valerá a pena apostar nela/e.


A resiliência é mote para uma vida plena, constatamos.


Se é verdade que os embates nos assolam e perturbam, não deixa de ser certo que voltamos a navegar com as intenções humanas mais benevolentes e crentes.


Desistir não é opção, uma vez ultrapassada a metamorfose pura e dura trazida por esses momentos duros da vida.


E afinal, esta vale mesmo a pena ser vivida.






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